A Biologia do Afeto, ocitocina e a importância do contato pele a pele

Olá a todos! Pessoalmente e profissionalmente estou vivenciando uma etapa da minha vida em prol de métodos que objetivam a humanização, a compreensão da importância do vínculo afetivo para o desenvolvimento de bebês de risco e da conscientização sobre a importância do Método Canguru para o acompanhamento da saúde de bebês e pais prematuros.  Exatamente por isso, tenho estreitado fortemente o vínculo do trabalho desse site, com organizações sérias, competentes e éticas, tais como a ONG Prematuridade.com

Sabe-se que quando a ciência afirma sobre a importância do afeto e das relações sociais para o desenvolvimento dos bebês, desde o seu nascimento, ela não está afirmando essa verdade apenas embasada em estudos que investigam o comportamento nas áreas humanas, tais como a antropologia e sociologia. Pelo contrário.  A ciência já afirma sobre a importância do afeto diante de todo desenvolvimento global de qualquer bebê, correlacionando o sentimento do amor, aconchego, acolhimento e bem estar do bebê, também com a BIOLOGIA!

Sim! Atualmente, as pesquisas na área de desenvolvimento infantil, especialmente nos primeiros anos de vida de todo bebê, já verificam a relação direta com o sentimento de se sentir amado, protegido e seguro com melhores funções do cérebro, do sistema imunológico, melhores índices de crescimento, desenvolvimento e aprendizagem.

Portanto, vamos compreender porquê o afeto entre pais e bebês, desde o início, apesar de termos culturas diferentes por todo esse mundo, tem uma relação direta com a biologia humana?

Uma das grandes provas que a ciência nos traz é diante de pesquisas que correlacionam o afeto humano com os níveis de ocitocina no sangue, o chamado hormônio do amor, diariamente produzido pelas mães e pais, diante de suas experiências com seus filhos, especialmente quando são bebês. Já é sabido o quanto o nível de ocitocina aumenta nas mulheres durante a gestação, aumentando ainda mais após o nascimento do bebê.

 E porquê será que esse hormônio do AMOR aumenta tanto após o nascimento de um filho? A resposta é simples: porque o bebê humano nasce desejando contato, aconchego e segurança afetiva. Pelo contato pele a pele, pelo toque humano, pelas trocas de olhares, pelo cheiro e voz de seus cuidadores e cria; bebês e pais vão criando entre eles um vínculo profundo e duradouro, criando a linguagem do amor entre um filho e pais.

E com a linguagem do amor estabelecida, o hormônio do amor vai somente aumentando dia a dia, ou seja, o nível de ocitocina vai aumentando dia a dia no sangue dessa nova mãe e com isso, ela vai se sentindo mais apegada e ligada emocionalmente a esse novo ser que está ali em seus braços. Os seus seios começam a produzir mais leite. O seu cérebro começa a não se desligar com a mesma facilidade. Mulheres após se tornarem mães, não costumam cair em um sono extremamente profundo. E isso acontece, pois diante de uma grande explosão de ocitocina no sangue materno, uma área do cérebro responsável pela vigília, chamada de amígdala, passa a ser acionada e jamais “ apagada¨no mundo da maternagem. Uma vez acionada a amígdala, para sempre iremos nos despertar frente ao mínimo choro de nossos filhos… porque não somente os sentimentos estão presentes no ato de amar, mas também a nossa biologia. Afinal de contas, o cérebro precisa perceber que aquela mãe precisa gerar toda segurança, cuidado e afeto para aquele novo ser humano.  

E o pai? Por ele não gerar uma vida dentro dele, não produzir leite e não acordar de tempos em tempos para o aleitamento materno, ele não produzirá a ocitocina? Aqui é que reside a surpresa em resultados de pesquisas que embasam a nova compreensão sobre o afeto parental para o desenvolvimento infantil. Os pais, mesmo passando por diferentes experiências com os seus filhos, também podem produzir níveis de ocitocina idênticos ao das mulheres, após o nascimento de seus filhos.

Mas como isso é possível? A ciência descobriu que quando o pai está presente no cuidado diário de seu filho, realizando com ele as atividades de vida diária características de cada fase etária, como: trocar fraldas, dar o leite, dar o banho, oferecer a papinha, brincar, pegar na escola, entre tantas outras atividades… ele também produzirá a ocitocina e também terá a sua amigdala mais acionada, tal como as mulheres.

Algumas décadas atrás pensávamos que a ocitocina estava muito veiculada à mulher. E hoje sabemos que após o nascimento de um filho, a ocitocina está veiculada ao cuidado de uma mãe e pai com o seu filho. Portanto, a ciência passa a afirmar que além da maternidade e paternidade permear a escolha e o desejo, também permeia a própria biologia e a inter- relação entre o desejo e a nossa própria constituição biológica de sermos humanos.

Como é potente verificar o quanto os nossos desejos podem potencializar a nossa biologia e a nossa biologia estimular a nossa prontidão de cuidar, amar, maternar, paternar….

E para que eu estou pontuando sobre isso em um site, especialmente, voltado para pais e bebês prematuros?

Porque definitivamente e de uma vez por todas, os estudantes, profissionais e equipes de saúde que decidirem se aventurar pela prematuridade e outras condições de risco ao nascimento, precisam compreender que a importância do contato pele a pele, entre um bebê de risco e seus pais, é um método embasado pela ciência, comprovando a importância do amor para a organização biológica, cerebral, clínica de todo ser humano. Colocar um prematuro ou um bebê de risco no colo não é somente um momento de importância para pais e bebês. É um momento de importância para toda uma equipe de saúde.

E por quê?

Porque uma equipe de saúde que trabalha em UTI Neonatal deseja e almeja que um bebê de risco produza menos cortisol- hormônio produzido diante do estresse- em um ambiente cheio de ruídos, cheiros, sensações e cores diferentes de um ambiente domiciliar; que seja mais tranquilo; que ganhe peso mais rápido; que mature o seu sistema imunológico  – sistema de defesas do organismo-; que se estabilize clinicamente mais rápido; que sinta menos dor… entre tantos outros desejos para um bebê que possui em seu pequeno corpo tubos, cateteres e máquinas.

Porque essa mesma equipe deseja ou deveria almejar uma mãe mais tranquila, confiante, com menos sentimentos de culpa pelo parto prematuro ou complicações vividas; além de uma mãe que persista na ordenha do leite e lactação. Para o pai, essa equipe deseja ou deveria desejar que ele fosse capaz de acolher a sua mulher, fosse capaz de amar o seu filho, fosse capaz de se tranquilizar frente a tantas mudanças em sua vida. Para esse casal, essa equipe deseja ou deveria almejar que eles não se separassem diante da vivência de um momento tão difícil, tão incerto e duvidoso. Deveriam desejar que esse casal percebesse o quanto é importante respeitar o tempo de luto e de tristezas profundas de cada um; o quanto é importante um acolher o outro e o quanto é importante continuarem juntos em prol de uma nova vida que batalha dia a dia e sem limites de força.

As equipes de saúde precisam compreender sobre a importância inegável de se colocar o bebê no colo de uma mãe e de um pai. Sobre a preciosidade de romper protocolos e verificar que o lugar mais esperado por todo e qualquer bebê grave é o colo de seus pais. As equipes de saúde precisam entender que Método Canguru significa VIDA. VIDA para quem recebe o bebê em seus braços e VIDA para quem é recebido pelos braços humanos e sedentos para aconchegar. As equipes de saúde precisam verificar que contato pele a pele significa ocitocina. Que o colo humano significa menos cortisol. Que o Canguru significa mais leite materno. Que o vinculo afetivo é o grande responsável por deixar bebês e pais mais tranquilos, confiantes e seguros. Um bebê mais tranquilo tem toda a sua parte clínica mais estável. Uma mãe e um pai mais tranquilos e que sentem que podem cuidar, acalentar e ninar um filho em UTI terão muito menos chances de ter uma doença psíquica, como a depressão e o transtorno de ansiedade.

Equipes de Saúde, tanto as públicas, como as privadas, precisam compreender que o Método Canguru não requer dinheiro. Requer conhecimento, prontidão e afeto por parte dos profissionais. Portanto, profissionais de saúde, jamais neguem um bebê para um colo de um pai e não neguem um pai, receber a sua cria em seus braços. Priorizem a VIDA! Priorizem cada minuto da VIDA, por mais que a mesma dure poucos minutos nessa Terra. Deixem que um pai receba o seu filho prematuro com VIDA em seus braços. Como sempre afirmo, uma das marcas mais concretas de amor que um pai prematuro pode receber é o seu filho em seus braços. Para muitos pais de bebês anjos, o canguru foi um dos únicos momentos em que eles sentiram os seus filhos VIVOS em seus braços.

Equipes priorizem a inter- relação entre biologia, ciência e afeto. Portanto, sejam equipes humanizadas, que realizam o canguru e que priorizem a produção da ocitocina nos pais prematuros. O cuidado diário de um bebê em uma UTI Neonatal precisa ter a participação de seus pais. Permitam que eles troquem uma fralda, participem do banho e que recebam os seus filhos diariamente em seus braços. Vamos potencializar a confiança nos pais de prematuros, permitindo que eles exerçam a maternidade e a paternidade, mesmo em um contexto hospitalar e com muita ocitocina em seus corpos.

Com afeto, Teresa Ruas e toda a equipe do prematuros.com.br

MARCEL COM MAITE MARIA DE 23 SEMANAS E 1 DIA
MARCEL, APRESENTANDO O LUCCA, NASCIDO DE 32 SEMANAS A SUA IRMÃ

 

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Este post tem 2 comentários

  1. Paula Christiane Vitor

    Teoria pautada junto a experiência de vida não tem preço! Parabéns pelo belo trabalho e pela luta diária em prol de intervenções mais humanizadas.

    1. teteruas

      Gratidão pela linda mensagem

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