A prematuridade é uma realidade que não se finaliza com a alta hospitalar e precisa ser acompanhada com atenção

Não tem como negar a imensa preocupação que todo pai de prematuro, especialmente do extremo, que tenha passado por muitas intercorrências clínicas e permanecido muito tempo hospitalizado, sinta sobre as etapas/marcos, ritmo e qualidade do desenvolvimento global que o filho apresentará após a alta hospitalar.

 Muitas dúvidas aparecem em nossas mentes e angustiam os nossos corações em relação ao desenvolvimento e todos os seus aspectos envolvidos, tais como: motor/sensório-motor, sensorial/sensório-integrativo, cognitivo, afetivo e social. Passamos horas e horas, tentando observar o que despertará o interesse de nosso bebê; como ele demonstrará seu interesse e reagirá aos objetos diários, brincadeiras, brinquedos e aos estímulos ambientais; quando e como ele irá adquirir alguns marcos/habilidades/condutas importantes dentro do desenvolvimento infantil; entre tantas outras dúvidas, não é mesmo?

Os nossos prematuros passam meses e meses lutando pela própria sobrevivência e pelo seu equilíbrio fisiológico/clínico em um ambiente hospitalar e muito distinto do domiciliar. São tantas sensações, estímulos, ocorrências tão distintas e que o cérebro imaturo do prematuro não está preparado para enfrentar, mas que terá que enfrentar para sobreviver, tais como:

  • as dolorosas em seus pequenos corpinhos- intubação orotraqueal, medicações, cirurgias-, afetando o sistema tátil- sistema que tem os seus receptores em todo o nosso corpo, desde a cabeça até a pontinha do pé, sendo responsável por captar as sensações de dor, temperatura, textura, consistência, forma…-
  •  as manipulações excessivas e por distintos toques de toda a equipe hospitalar, afetando novamente o sistema tátil
  •  os ruídos altos e a todo tempo, afetando o sistema auditivo
  •  as luzes fortes em seus olhinhos tão imaturos, afetando o sistema visual, entre tantas outras sensações aversivas para os nossos pequenos.

E… a falta de tantas sensações e com maior frequência que organizam, maturam e promovem o desenvolvimento de todo o Sistema Nervoso Central, no qual o cérebro é o grande órgão majoritário.

  • menos frequência ou, até mesmo, a falta/ausência do colo dos pais, do contato pele a pele, do calor do colo de quem mais ama os filhos, afetando a integração de vários sistemas sensoriais responsáveis pelo desenvolvimento infantil- tátil, vestibular- de uma forma muito geral, esse sistema é o grande responsável pelo nosso equilíbrio, quando estamos parados e/ou em movimento-, proprioceptivo- de forma também geral, esse sistema é o grande responsável pela  nossa consciência corporal: como e onde estão as partes de nosso corpo, sem que precisemos, por exemplo, usar a visão-  e todo o acalento e organização afetiva.
  • menos frequência das vozes mais familiares ao bebê, desde quando estava na morada mais quentinha e apertadinha de todas: o nosso útero e todo o líquido que o envolvia. A não familiaridade das vozes, assusta os nossos prematuros… em um momento é a voz da enfermeira, outra hora do médico, outra hora da fisioterapeuta e assim, por diante…
  • menos frequência do cheiro, do toque dos pais, afetando também a integração de vários sentidos e a organização neurológica do bebê.
  • falta dos movimentos intrauterinos de estender e flexionar os braços, pernas, abrir as mãos, os dedos dos pés… afetando o sistema proprioceptivo.
  • a falta ou menor frequência das tão famosas cambalhotas intrauterinas e o não ficar de cabeça para baixo, quando o bebê já se encaixa para nascer, afetando o sistema vestibular.
  • a ausência ou a menor frequência da amamentação, afetando o sistema tátil que também se encontra na boquinha do bebê e toda a movimentação entre lábios e língua para o bebê deglutir o leite materno, quando é recebido diretamente do movimento de sugar o peito materno, afetando o sistema proprioceptivo- condição oral-.

Enfim… são tantos exemplos que poderia continuar a dar, mas o objetivo aqui é demonstrar o quanto a própria exposição a tantos estímulos que o cérebro do prematuro não está preparado e, por outro lado, a falta de tantas outras sensações  que o prematuro estaria preparado para receber e esperando por elas; podem interferir, sim, na forma como esse bebê irá se desenvolver e demonstrar suas condutas/comportamentos/habilidades frente a interação com os pais, atividades da vida diária, ambiente e objetos externos. Os prematuros podem apresentar com maior frequência o que chamamos de Disfunções de Integração Sensorial, ou seja, quando existe um ou mais sistema sensorial- visão, audição, olfato, paladar, tato, vestibular, propriocepção, tato, interocepção- interferindo em seu processo de desenvolvimento, aprendizagem, no brincar, na socialização e/ou nas atividades da vida diária.  

Esse texto é uma forma de alertar os pais que nem todas as dificuldades que surgem ao longo do desenvolvimento são patologias/transtornos, mas que também não podem ser olhadas/avaliadas ou julgadas como sendo frescura da criança, ou a rotulando de bebê preguiçosa, desatenta, manhosa, por exemplo. Todas as semanas, recebo depoimentos de pais, nos quais pontuam o quanto os seus bebês recebem rótulos ou características que, muitas vezes, descontextualizam o histórico da prematuridade e longa internação em suas vidas, ou que não recebem o adequado acompanhamento por parte dos profissionais de saúde em relação ao crescimento e desenvolvimento durante os primeiros anos de vida- período mais nobre para a acomodação/ desenvolvimento /organização neurológica de todo o sistema nervoso central-.

Sabemos o quanto nem todo prematuro apresentará particularidades motoras/sensoriais/cognitivas/afetivas em sua trajetória de desenvolvimento e aprendizagem- https://revistacrescer.globo.com/Colunistas/Teresa-Ruas-Vida-de-Prematuro/noticia/2021/03/teresa-ruas-todo-prematuro-apresenta-particularidades-em-seu-desenvolvimento.html-.  Mas sabemos também, que todo prematuro deveria ter o direito de ser acompanhado por profissionais especializados em crescimento e desenvolvimento infantil em seus primeiros anos de vida e primeira infância. Infelizmente, os seguimentos ambulatoriais/follow up ainda são escassos em nosso país. E uma das minhas missões como profissional de saúde e mãe de dois prematuros é gerar a conscientização profissional e social sobre a sua importância e necessidade dessas ações se tornarem política pública de saúde, espalhando- se por todo o nosso país. Pois, como eu sempre afirmo, a prematuridade é uma realidade que não se finaliza com a alta hospitalar e precisa ser acompanhada com atenção.  

Logo abaixo, seguem alguns comportamentos que devem ser observados pelos pais, dialogados com os pediatras responsáveis e, se, necessário ter uma avaliação com o terapeuta ocupacional de integração sensorial de Ayres- profissional ainda escasso em algumas regiões de nosso país-, o qual poderá avaliar se existe algum sistema sensorial, ou mais de um, que esteja interferindo na expressão do desenvolvimento, habilidades e/ou marcos esperados para a idade corrigida daquela criança prematura.  Além disso, o fonoaudiólogo, fisioterapeuta, ou outras especialidades médicas/clínicas podem ser necessárias para o acompanhamento. Cada caso vai requerer a necessidade ou não de outros profissionais da saúde.  

  • dificuldade e/ou negação em aceitar diferentes texturas/consistências de alimentos durante a introdução alimentar
  • atrasos significativos no desenvolvimento neuropsicomotor, mesmo com a adequada correção da idade e estímulos ambientais
  • dificuldade em aceitar variadas texturas em mãos e pés, como pisar na grama, areia, terra, colocar a mão na comida e/ou permanecer com essas partes do corpo sujas diante do contato com tinta, cola, massinhas de modelar, espuma de sabão entre outras
  • não demonstrar interesse pelo rosto humano
  • não sorrir diante da face humana
  • não demonstrar interesse por objetos/brinquedos, não realizando a exploração visual e manual dos mesmos; além de não conseguir levá-los à boca, manter seguros nas mãos, soltá-los, chocá-los uns contra os outros
  • não prestar atenção quando os cuidadores chamam a criança pelo seu nome
  • dificuldade em manusear com as mãos, objetos menores, utilizando-se de movimentos mais finos e precisos dos dedos
  • ter muita dificuldade em aceitar o momento do banho, trocar de roupas, cortar as unhas
  • desorganizar, tampar os ouvidos ou até mesmo nausear/vomitar diante de barulhos inesperados/altos
  • evitar atividades que tenham movimento, como, por exemplo, os balanços em parquinhos
  • cair com muita frequência
  • ter dificuldades significativas de aprender ações motoras novas, como o uso de talheres para comer
  • ter dificuldades de integrar os movimentos de braços e pernas

É válido salientar, que escolhi apenas alguns exemplos que servem de alerta aos pais diante do acompanhamento da trajetória do desenvolvimento infantil durante os primeiros anos de vida. É claro que temos que observar o conjunto de sinais e possíveis dificuldades, contextualizando-os à vida da criança e sua família. Isolar um único aspecto/sinal apresentado e descontextualizado da realidade da criança não é o caminho. Afinal de contas, acompanhar o desenvolvimento infantil e prevenir possíveis dificuldades não significa patologizar a infância, comparar com outras crianças ou não respeitar as habilidades que a criança já apresenta. Acompanhar significa, antes de tudo, produção de vida e saúde para os nossos prematuros.   

Esse texto foi escrito e fundamentado diante da referência bibliográfica do meu livro Prematuridade Extrema: Olhares e Experiências de 2017, pela editora Manolle.

Gostaria também de agradecer especialmente à Heloísa Gagliardo, Miriam Arvelino de Paula do @eintegracao, Ana Luiza Andreotti do @to–integrasense, Luana Faria e toda a equipe interdisciplinar do @prematurosbr por auxiliar tantas crianças prematuras em suas intervenções e acompanhamentos. Juntos somos mais fortes em prol de nossos prematuros e famílias, com carinho e afeto, Teresa Ruas, fundadora da equipe interdisciplinar @prematurosbr e mãe de dois prematuros

https://revistacrescer.globo.com/Colunistas/Teresa-Ruas-Vida-de-Prematuro/noticia/2022/02/teresa-ruas-prematuridade-e-uma-realidade-que-nao-se-finaliza-com-alta-hospitalar-e-precisa-ser-acompanhada-com-atencao.html

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