Alimentação: momento de grande integração de sensações

Texto destinado aos pais e profissionais de saúde, escrito diante da experiência clínica e diária com crianças prematuras de Ana Luiza Andreotti e Teresa Ruas

Nas últimas semanas estamos conversando sobre as diferenças sensoriais no prematuro ao longo do seu desenvolvimento. Sabemos que podem ocorrer certas “desordens” no processamento das informações sensoriais e esses sinais podem ser observados ao longo dos primeiros anos de vida, tais como   a reatividade do bebê aos estímulos táteis e oral. 

Nos posts anteriores falamos um pouco a respeito do Sistema Tátil e como os pais podem reconhecer e ajudar seus filhos na relação dele com os estímulos do ambiente ao que se refere sobretudo, ao toque. Quando pensamos na sensação do toque, do tato, logo nos vem à cabeça sensações na pele e no corpo como um todo, contudo, precisamos destacar que a boca é uma das regiões com maior representação sensorial no cérebro. A região oral, composta pela parte externa e interna da boca apresenta um grande número de receptores táteis, que levam informações ao cérebro sobre as texturas e consistências dos objetos e dos alimentos.

Entre outras razões, as funções sensoriais é uma das explicações do porquê os bebês começam a explorar o mundo com a boca…sentir os objetos, a própria mão, o seio e a pele materna. Esses momentos são fundamentais, base para a construção do afeto, da motricidade e do desenvolvimento de uma forma geral.

Mas hoje vamos começar a falar sobre um outro aspecto em que o Sistema Tátil está envolvido que é a alimentação do bebê, tema difícil para a grande maioria dos prematuro, especialmente para os extremos. 

 Vamos imaginar aqui quantas sensações são “ativadas”, recebidas pelo cérebro do bebê e da criança durante a alimentação? Vocês conseguem  perceber o quanto o momento da oferta do alimento é caracterizado por uma grande integração de sensações sensoriais? A visão, o tato, o cheiro, o gosto (paladar)…são muitas sensações ao mesmo tempo. Os prematuros diante da privação de várias experiências sensoriais quando estão entubados, com CPAP ou somente com a sonda nasogástrica- não colocam a boca no seio da mãe, não sentem o gosto e a textura do leite, não sugam e engolem, as mãos na boca- podem apresentar dificuldades  na    alimentação oral, como a introdução do leite por via oral e/ou  na introdução de diferentes consistências e  texturas de novos alimentos que vão compor o cardápio infantil.

A prática diária e clínica com os prematuros nos demonstra o quanto essas crianças podem apresentar comportamentos hiperresponsivos e aversivos aos alimentos e suas diferentes consistências e texturas. Assim, como existem as crianças prematuras que choram ao serem tocadas, ou não gostam de lavar a cabeça, cortar as unhas, ou ainda, escolhem usar determinadas textura de roupas, não se sujam, não gostam da areia, da grama, etc… podem apresentar também, comportamentos de aversão oral e se mostrarem reativas a tudo que vai à sua boca. Esse comportamento em parte pode acontecer pela imaturidade neurológica do bebê, que ainda não se mostra pronto aos desafios na introdução dos alimentos e, parte também, pela experiência negativa que vivenciou na UTI Neonatal.

Para responder a uma das perguntas feitas lá no começo do texto, v amos nos concentrar na reflexão de como as sensações são determinantes no momento da alimentação. O tato é importante para que a criança consiga processar de forma confortável e saudável diferentes texturas no corpo e na boca. Somado a isso, é fundamental que os nossos pequenos consigam manter o alimento dentro da boca, localizar o alimento na boca e formar o bolo alimentar adequado a partir da mastigação (discriminação tátil e propriocepção). 

E onde entra o famoso Paladar? Nos sabores! o paladar diz respeito às preferências alimentares de cada um de nós e, somado às sensações de texturas (mole, pastoso, líquido, duro, crocante, etc) e consciência do corpo (se a boca está aberta, fechada, quanto de força colocar na mastigação…) resulta numa alimentação prazerosa.

Sabemos que diante às dificuldades na alimentação que podem acontecer na  criança prematura e diante do rígido acompanhamento dos parâmetros de crescimento, tais como o aumento do peso,  há aumento no nível de stress da família, com uma alta freqüência do sentimento de “incompetência” e/ ou angústia dos pais por não conseguirem alimentar seu filho, sobretudo pelas muitas horas que são dedicadas a alimentação, diante da negativa em receber a oferta do alimento e/ ou diante dos comportamentos aversivos dos filhos. 

Nesses casos, é importante que, caso seu filho demonstre aversão, rejeição ou dificuldade em aceitar novas texturas/ consistências de alimentos, não o force e sempre leve todas as dificuldades verificadas para a consulta pediátrica, para que juntos possam dialogar sobre o momento da alimentação e se há a necessidade da entrada de uma outra visão, como a da fonoaudiologia e da terapia ocupacional. 

É válido lembrar que um bebê nascido a termo, com desenvolvimento global dentro do esperado, leva em média 1 ano ou mais para ser apresentado a todas as consistências e texturas dos alimentos. Portanto, mesmo que os pais devam se atentar a todos os sinais de dificuldades dos filhos, também é importante perceber o quanto pode ser esperado que a criança não aceite a introdução da papinha, que estranhe a entrada da papa salgada, ou ainda, que permaneça na consistência pastosa por um tempo mais prolongado. Há de se dar tempo ao desenvolvimento e amadurecimento das suas sensações para que a criança possa dar conta de mais desafios. Dar tempo, mas com um acompanhamento de que esse ¨tempo¨ seja fundamental para o maior amadurecimento neurológico de crianças que tiveram tantas privações das sensações em seus momentos iniciais de vida. 

Existem diferentes formas na introdução do alimento pastoso para o bebê prematuro e, igualmente, as novidades em texturas, consistências e temperatura do alimento. Favoreça um ambiente seguro, com conforto e tranquilo nas primeiras ofertas. Explore o potencial sensorial do alimento e permita que o seu filho cheire, coloque as mãos, coloque a comida na língua, na boca… deixe ele se “sujar”… permita-o que ele possa colocar as mãozinhas nessa papinha ou a mãozinha na boca para enriquecer suas experiências e se sentir seguro com as novidades. Mesmo que nesse momento ele ainda não consiga comer todo o pratinho como você esperava… se ele manusear, cheirar, olhar, brincar de oferecer para você, para o pai ou irmão, vocês já conseguiram se alimentar de sensações, de afeto e de brincar…aos poucos ele vai conseguir dar mais um passo e colocar o alimento na boca para comer.

 Sirva sempre o prato de papinha na frente do bebê para que ele possa observar a comida chegando ao seu prato. Provoque a integração de sensações apresentando o alimento cru para que ele possa explorar o cheiro e diferentes texturas e consistências…peça para ele te ajudar com o dedinho ou com a mão a descascar uma fruta de fácil manuseio como a banana, tangerina, figo…. Muitas vezes começamos o processo de interação das sensações dos alimentos pelos “lanchinhos” como hora da fruta ou do suco para favorecer esse contato.

Traga ludicidade para a hora da alimentação como deixar que ele brinque com a comida, dar de comer a um boneco, caso ele tenha irmãos, peça ajuda para dar de comer ao irmão e sobretudo, deixar que ele brinque à mesa enquanto a família come para que ele possa observar diariamente como vocês fazem e o prazer que têm ao se alimentar.

Como já dissemos aqui é importante sempre conversar sobre as questões e dificuldades alimentares com seu Pediatra. Pode ser que seja necessário a avaliação e orientação de uma Fonoaudióloga especializada pois, o processo de mastigação é um aprendizado e depende do desenvolvimento da motricidade oral. Precisamos avaliar se essas questões estão íntegras e trabalhando de forma adequada para favorecer a alimentação. Algumas vezes, a criança aparentemente mastiga mas não está com essa função desenvolvida de forma adequada, não tem força, não consegue partir o alimento com eficácia para engolir, então ele “masca”, o que dificulta o ritmo e quantidade de alimento que ele ingere… há de se avaliar também as questões respiratórias… como sua criança está coordenando os movimentos de mastigação, sucção e deglutição com a respiração. 

A criança com comportamentos aversivos para se alimentar pode formar “bolos” de alimento na boca, acumulando geralmente no céu da boca para engolir rápido… e assim sentir menos sua textura e sabor. Elas podem começar a “escolher” determinados alimentos e apresentar comportamentos seletivos para comer, pois em geral, não conseguem administrar certas texturas e consistências mais complexas na boca no processo de deglutição e com isso, preferem alimentos mais fáceis de lidar e ter controle sobre ele.

Espera-se que com a estimulação das sensações, por meio especialmente do Brincar, das experiências do tato, visual e do cheiro dos alimentos faz com que a criança se sinta mais confiante no espaço que a cerca, capaz de manusear e explorar diferentes texturas, brinquedos e brincadeiras. A família e/ ou a terapia ocupacional, caso necessário, podem potencializar e muito a  promoção e a qualificação das sensações por meio do brincar, a fim de aumentar a segurança e a condição da criança para experimentar novos alimentos e comer de forma mais tranquila e saudável.

Fotos: Arquivo Pessoal. Proibido Repost

Referências:

KRANOWITZ, C.S. The Out-of-Sync Child: recognizing and coping with sensory processing disorder, 2005.

BUNDY,LANE,MURRAY. Sensory Integration. Theory and Practice, 2002

ROLEY, SINGER. Integração Sensorial com bebês, 2015.

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