“Enfrentei a depressão pós-parto com o nascimento do meu segundo prematuro”

“Enfrentei a depressão pós-parto com o nascimento do meu segundo prematuro”

Bebê prematuro (Foto: Getty Images)

Ao longo da semana passada, repostei no instagram @prematurosbr um texto de autoria da Dra. Ana Paula Alves – Neonatologista e Pediatra do @draanapaulaalves – sobre o sentimento de culpa que as mães de prematuros e bebês de risco sentem diante do nascimento antes do tempo esperado e de todas as complicações/ instabilidades clínicas que esses bebês passam, a curto ou a longo prazo, provindas da prematuridade.  

Eu lia o texto e sentia o meu coração calmo e sereno. Realmente tive uma sensação do quanto o nascimento prematuro dos meus dois filhos já estava elaborado e ressignificado dentro de mim. Mas… à noite, ao me deitar, percebi que havia um outro sentimento de culpa para o qual até hoje não consegui fazer o mesmo processo de elaboração e ressignificação.

Eu enfrentei a depressão pós-parto com o nascimento do meu segundo prematuro. E por mais que os sintomas tenham durado pouco tempo, diante de um acompanhamento médico preciso e imediato, as lembranças que carrego desse período ainda geram uma inquietude em meu coração,além de um sentimento de culpa. Não tenho vergonha alguma em expor e afirmar sobre esse sentimento, pois o meu maior objetivo, após tudo o que eu vivenciei, desde o nascimento de minha primeira filha com 23 semanas e 1 dia, é o de acolher, abraçar e compreender tantas outras mulheres que também passaram ou passam por todas essas difíceis experiências.

Consegui pegar no sono, após repetir para mim mesma o quanto eu também não tinha culpa nenhuma por ter vivido uma separação com o meu bebê de ordem física – diante das paredes da incubadora – e, também, de ordem emocional – pelas paredes psíquicas provindas de uma depressão pós-parto. Fui repetindo, em pensamento, acalentando o meu coração e sentindo o amor genuíno e intenso que carrego pelo Lucca e que o Lucca carrega por mim. Nesse momento, senti o quanto o amor pode curar as mais profundas marcas e nos fazer renascer.

E por isso, decidi escrever alguns parágrafos sobre a depressão pós-parto, uma doença que acomete muitas e muitas mulheres e que necessita ser melhor compreendida, acompanhada e acolhida pela nossa sociedade. 

No meu caso, em particular, reviver toda a experiência de um repouso absoluto, do ambiente, rotina, barulhos, medos e angústias típicos de uma UTI Neonatal me demandou muita resiliência afetiva. O esforço demasiado justifica o principal motivo pelo qual os pais que revivem situações estressantes, como as hospitalares, possuem um maior risco de desenvolverem sintomas, tais como da depressão, do transtorno de ansiedade e pânico. Para mim, a consequência psíquica por reviver experiências difíceis diante de uma gestação de alto risco e a prematuridade pela segunda vez foi a depressão pós-parto, após a alta hospitalar do meu pequeno.

É importante salientar que esses sintomas não surgiram em mim porque não desejei o meu segundo filho. Porque não o amei desde o dia em que descobri que estava grávida, mesmo não sendo nada planejada essa gestação. Porque não imaginei como seriam os seus cabelos, olhos e cor da pele. Porque não estava extremamente grata e agradecida por estar gerando uma nova vida em meu ventre. Da mesma forma que afirmo que não houve qualquer relação entre o meu desejo, felicidade, amor e gratidão em ter o Lucca em minha vida com a depressão pós-parto, a sociedade precisa compreender que nenhuma mulher escolhe, busca ou promove a depressão pós-parto. Tenho uma grande convicção pessoal e profissional de que nenhuma mulher escolhe, por si só, adoecer. Os sintomas podem surgir por uma gama de fatores, incluindo os biológicos, psicológicos e sociais.

Além disso, medicina não é uma ciência exata. Por mais que os estudos pontuem sobre a maior incidência de partos prematuros em mulheres que já passaram por essa experiência em seu histórico gestacional , a medicina não consegue ter uma certeza absoluta de uma ocorrência ou não de outro parto prematuro extremo naquela mesma mulher.

Justamente, essa não certeza absoluta, ao mesmo tempo que me enchia de esperança em eu poder vivenciar uma gestação mais tranquila, me enchia também de angústia por eu não saber até que semana gestacional eu conseguiria chegar. Até eu completar as 23 semanas gestacionais, depois para Lucca completar 1 quilo, após eu chegar até 27/ 28 semanas, vivenciei muitos momentos de medo, angustia e tristeza. Por mais que eu desejasse ter somente pensamentos positivos, fé e esperança, eu era uma mulher com a Incontinência Ístimico Cervical, com um útero que carregava marcas da primeira gestação, hipertensa, que necessitava ficar acamada, em repouso absoluto, que ficou internada de 27 a 32 semanas gestacionais (nascimento do Lucca), com uma filha de 3 anos e com um marido que necessitava ficar ausente para trabalhar e nos manter financeiramente.

Portanto, muitas vezes, os sintomas aparecem diante do contexto social e afetivo em que a gestante ou a puérpera está vivenciando e não, necessariamente, porque não está aceitando a gestação em sua vida. Diante da minha experiência profissional com gestantes de risco e puérperas, tenho percebido que contextualizar e significar as diversas situações vividas pelas mulheres seria a primeira medida para a promoção da saúde materno-infantil e prevenção da depressão pós-parto. Julgar, patologizar, ironizar, debochar, inferiorizar ou achar que o que as gestantes e puérperas sentem é frescura ou um sinal de fraqueza não é o caminho que deve ser tomado pelos profissionais de saúde, familiares, amigos ou entorno social.

Não somos fracas e nem precisamos nos sentir culpadas pela ocorrência da depressão pós-parto em nossas vidas. Pelo contrário! Somos mulheres fortes, guerreiras e resilientes e que podem, sim, sentir culpas por toda a trajetória da maternidade. Culpas, estas, que podem e devem ser acolhidas pelo próprio amor que sentimos pelos nossos filhos e pelo amor que os nossos filhos sentem por nós. Um amor puro e genuíno, capaz de curar as dores mais significativas e renascer o sentimento de que sempre fazemos o melhor e o que é possível em cada momento vivido. Mais uma vez, afirmo o quanto o amor cura e é exatamente assim que sigo cuidando de algumas cicatrizes em meu coração: quando ele bate e pulsa afeto ao ver os meus dois filhos, eis ai a sua cura e regeneração… Seguimos amando e sendo amados…

Um grande beijo, com muito afeto, Teresa Ruas

Matéria Revista Crescer: https://revistacrescer.globo.com/Colunistas/Teresa-Ruas-Vida-de-Prematuro/noticia/2020/07/teresa-ruas-enfrentei-depressao-pos-parto-com-o-nascimento-do-meu-segundo-prematuro.html

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