Laços Físicos e Emocionais em uma UTI Neonatal: olhar de uma enfermeira

Eis que a vida é cheia de surpresas… Sempre ouvi frases, tais como: ¨jogue energias boas que o mundo te trará de volta em dobro.¨

Eu, verdadeiramente, não entendia muito o que significava tudo isso, mas comecei a interpretar na forma mais simples, diante de importantes aprendizados que obtive com a minha mãe, grande inspiradora da minha vida. Ela sempre me disse sobre a necessidade de plantar boas sementes, pois delas sempre podem nascer árvores cheias de frutos deliciosos. E assim foi a relação que recebi de volta, com o convite para escrever e fazer parte da equipe do prematuros.com.br.

Cuidei da filha de Teresa Ruas na UTI Neonatal do Hospital Albert Einstein, nascida de 23 semanas e 1 dia, nossa Maitê Maria. Uma bebê prematura extrema, muito pequena, frágil e delicada. E não apenas dela, mas sim da mamãe e do papai que estavam atrás de todo o cenário. Anos se passaram e agora surge a oportunidade de descrever como é receber um bebê prematuro ou que precise de cuidados especiais junto da sua família em um ambiente hospitalar e suas particularidades e criar um vínculo afetivo com aquela família que passará dias, semanas ou meses ali.

Não foram poucas as vezes que tive que quebrar um coração ¨fechado¨ ou sem esperança de pais de UTI Neonatal. Mas esse sempre era o meu desafio: fazer os pais acreditar que eu e toda a equipe estávamos fazendo o nosso melhor e que cuidaríamos do seu bebê como se fosse o nosso filho. Não sei se vocês sabem, mas as enfermeiras neonatais chamam os seus pacientes de filhos. Realizamos uma “maternidade” dividida. Acreditem, nós temos ciúmes dos bebês, os quais são os nossos pacientes e filhos por um tempo. Quando é necessário ceder um cuidado para outra colega, ficamos sempre de olho em nosso filho, enamoradas dele e com saudade . Quando o bebê que cuidamos por muito tempo tem alta para a semi-intensiva, também chamada de CI (cuidados intermediários) vamos visitar e saber como está a evolução, diariamente.

Eu sempre gostei de histórias, sempre fui uma boa ouvinte, gostava do horário de visitas, conhecer os familiares, os irmãos mais velhos, os avôs, sentir a família daquele bebê e receber todo o agradecimento e carinho que todos os familiares expressavam por nós e toda a equipe. Sobre as avós, sempre gostei de sentir o perfume gostoso delas. Aquele perfume invadia o contexto hospitalar, quebrando o cheiro típico de uma UTI Neonatal. E eu sempre perguntava se era o primeiro neto e naquele momento já começava a saber mais sobre aquela família e a estabelecer uma outra relação.

Os dias iam se passando e o vínculo estava formado. Os pais já estavam mais confiantes. Eu trabalhei muitos anos a noite, eles costumavam ir embora em torno de 21:30h, após o horário de visitas e ligavam antes de dormir apenas para ouvir: “está tudo bem com o seu (s) bebê (s)”. Eu hoje sei, na posição de mãe, o peso dessa frase e o quanto aflitivo é dormir sem um filho em casa.

Sempre tive uma queda pelas meninas, pelo cor-de-rosa, lilás e todo esse universo fofo. Por isso, Então em todos os meus anos como enfermeira neonatal, sempre fiz lacinhos para as prematuras, já que todos os laços comprados pelas mamães ficavam gigantes nas bonequinhas. Sempre ia em lojas de artesanato e comprava fitas, meias, mini pérolas e confeccionava muitos deles. Confesso que os primeiros lacinhos ficaram esquisitos, mas isso não importava. A intensão era de surpreender o coração aflito de uma mamãe. Então fazia sempre uma surpresa. Precisava ser um momento espontâneo e não muito planejado. Cheguei até a fazer uma necessaire que ficava disponível na unidade neonatal para qualquer um da equipe ter acesso aos laços. A necessaire ficava em uma gaveta, junto com alguns outros impressos de burocracia hospitalar, embaixo das impressoras de etiquetas.

O momento escolhido para embelezar a bebê, as vezes era um dia difícil, que apresentava mais oscilação de saturação, o dia da alta da mamãe (momento em que a mãe vai embora do hospital e a bebê continua internada) ou apenas um dia de grande luta de uma prematura.

As incubadoras ficam por rotina cobertas com um pano azul para evitar que a luz do ambiente fique direto no bebê, uma medida de conforto, considerando que a vida intrauterina era sem iluminação, quentinha e acolhedora. Eu higienizava a bebê (palavra técnica para banho do bebê prematuro, realizado com algodão úmido e água morna), fazia uma troca de lençol para ficar tudo bem limpinho, pois quem não gosta de uma cama arrumadinha, não é mesmo?! E então colocava um charmoso lacinho para quando os papais chegassem no leito e tirassem o pano azul, estava então sua filha, delicada, enfeitada, esperando os dias passarem para ganhar peso, lutando com os desafios da prematuridade. Eu sabia que isso era apenas uma pequena gota de mel em cima de uma avalanche que passava sobre a vida daqueles casais, mas eu estava ali, tinha como amenizar a dor e eu precisava ser diferente, fazendo o meu melhor. Essa era a Ely, cheia de laços, sorrisos e abraços. Eu chorava com as mães e ria com a minha equipe. Amei cada bebê que cuidei como se fosse meu, porque minhas horas de plantão eram de dedicação integral aos grandes guerreiros prematuros e com muitos lacinhos para as minhas meninas.

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