Precisamos falar sobre o pós-parto de mães e pais de prematuros

Gestos simples e pontuais podem modificar – e muito – a vivência do puerpério de pais de prematuros.

Diante de minhas rotineiras leituras sobre o pós-parto e puerpério, tenho me deparado com algumas lembranças pessoais e tantos outros fatos e experiências diante do acompanhamento de gestantes de risco sobre o que significa esse período para mulheres e pais de UTI Neonatal e/ou Pediátrica.

Muito se fala sobre todas as transformações físicas, psíquicas e sociais que as mulheres vivenciam no momento da gestação e logo depois do nascimento do bebê. Atualmente, as equipes de saúde, os pais, a família e os amigos já possuem uma outra escuta para a compreensão do que de fato significa o puerpério para uma mulher e também para um homem. Sim. Sabemos o quanto esse diálogo precisa ser expandido e muito melhor compreendido. Ainda há muito julgamentos e desvalia dos sentimentos que pais e mães podem experimentar frente à chegada de um filho. Porém, estamos mais conscientes de que as transformações psíquicas, emocionais e físicas na gestação e no pós parto são intensas e duradouras em mulheres que se tornam mães e também nos homens que se tornam pais. É claro que tudo isso ocorre com uma outra intensidade e outras características nas mulheres, mas a ciência já sabe que os homens também passam por intensas transformações e que o diálogo sobre a paternidade também precisa de mais espaço e consciência em nossa sociedade.

A sensação de uma grande incompletude, de um buraco vazio e de uma grande falta de diálogo e escuta toma conta do meu coração quando penso em como é a experiência e o acompanhamento do puerpério de uma mãe e de um pai de UTI Neonatal/Pediátrica. Como uma mulher que já vivenciou dificuldades para engravidar, duas gestações de alto risco, duas prematuridades, uma depressão pós parto, crise no casamento provinda de tantas lutas em prol do meu desejo em ser mãe novamente e que dia a dia enfrenta os desafios profissionais como uma terapeuta ocupacional na área materno-infantil, afirmo o quanto o puerpério de pais de UTI é um momento em que a solidão, o desespero, a angústia e a ansiedade podem tomar conta de nós com uma qualidade muito superior se formos comparamos o puerpério de pais que possuem a experiência de uma gestação e nascimento sem intercorrências. Não estou desvalidando o puerpério de pais a termo. É um período desgastante e difícil para toda mãe e para todo pai. Apenas desejo, com esse texto, abrir espaço para uma realidade ainda tão pouco compreendida e sobre a qual pouco se dialoga…

Também não quero aqui focar somente na tristeza e no desespero de pais de UTI. Quero salientar o quanto gestos simples e pontuais podem modificar – e muito – a vivência do puerpério de pais de prematuros – sem os filhos nos braços e, depois, em casa. Lidar com o sentimento de culpa que as mães de prematuros têm pode ser o primeiro caminho. Nós, mães que temos os nossos filhos muito antes do tempo estabelecido, nos culpamos tanto, tanto… e por um tempo indeterminado. Essa culpa nos corrói. Essa culpa nos imobiliza. Essa culpa nos paralisa. Para lidar com ela, nosso puerpério é permeado por choros e por choros e com uma dor intensa. Nesse momento, mais do que palavras ou grandes explicações científicas ou técnicas da área médica, precisamos de abraços verdadeiros, de palavras de esperança e fé. Sei o quanto precisamos saber da situação clínica de instabilidade de nossos bebês, mas diante de um puerpério tão pesado e tão incerto, peço a todos de uma equipe de UTI que jamais matem ou aniquilem a esperança de uma mãe e um pai de UTI. Por isso, antes de dar uma notícia difícil/ ruim, antes, dê a eles uma notícia boa ou simplesmente um bom dia para aqueles que estão adentrando, por mais um dia, naquele contexto hospitalar.

Diante da não produção de leite ou da pouquíssima quantidade que uma mãe de prematuro consegue retirar em pleno puerpério, mantenha viva a força de vontade e garra dessa mulher, de ir de 3 em 3 horas no banco de leite para ordenhar o alimento mais precioso que existe para um bebê. Antes de dar aquela lista de recomendações para alimentação saudável, ingestão de água ou sono adequado, a equipe hospitalar, a família, o companheiro podem demonstrar o quanto estão orgulhosos dessa mulher. Um abraço, um sorriso, um olhar cheio de contentamento podem transformar o coração sem esperança dessa mãe prematura em puerpério, em um coração cheio de potência e fé. A produção do leite pode simplesmente começar, porque o amor é o sentimento mais transformador que existe nesses momentos de intenso sofrimento.

Os amigos e a família muitas vezes não sabem como lidar com toda aquela situação inesperada. E muitas vezes nem desejamos atender às ligações, pois não temos forças para explicar o que está acontecendo. Nesses momentos, uma mensagem perguntando quais produtos precisam ser comprados no supermercado é de grande valia. Pais prematuros precisam se alimentar! Uma mãe prematura precisa se alimentar! E a energia para ir ao supermercado pode estar nula. Ainda mais em tempos de pandemia, em que o medo de pegar algo e passar para o bebê ainda é muito maior.

Lavar e passar as roupas. Lavar as louças. Varrer a casa. Deixar uma comida pronta. Ações tão rotineiras e cotidianas e que, após um dia inteiro de hospital, ficam tão difíceis. Um amigo íntimo ou um familiar podem, por exemplo, pegar a chave com os pais prematuros, passar algumas horas na casa desses pais e devolver a casa cheia de cuidados, carinho e atenção… O coração vazio pela ausência do filho em casa, com certeza, será preenchido pelo valor e significado de uma verdadeira amizade. O puerpério desses pais pode, sim, ser mais cheio de vida e esperança.

Equipe hospitalar, familiares e amigos, encorajem essa mulher em puerpério a cuidar de si e a manter a sua autoestima. Muitas vezes, a culpa que sentimos atinge também a nossa vitalidade como mulher e o nosso feminino perde forças. Isso aconteceu comigo. Percebi, em mais um dia de UTI, que não fazia nenhuma diferença escolher o meu pijama confortável ou qualquer outra roupa. A culpa e a incerteza dos dias em UTI podem atingir, sim, a autoestima e a vaidade de quem vivencia profundas transformações, sem seu tão esperado bebê nos braços. Encorajem essa mulher e esse homem a saírem mais cedo do hospital para verem um filme juntos ou tomarem um banho, comerem juntos, namorarem. Eles precisam estar conectados, unidos e fortalecidos, não somente pela dor, mas também no amor que sentem um pelo outro. Não culpem ou julguem uma mãe e um pai prematuro e em puerpério diante da necessidade urgente de sair correndo do hospital para espairecer a mente. O sofrimento intenso, às vezes, nos cega, nos desorganiza, nos atordoa… Precisamos de uma pausa, de um café, de um chocolate, de uma boa música, de um abraço intenso ou de ficar sozinho. Não é uma fuga ou uma dificuldade para aceitar o que está acontecendo. Às vezes, é simplesmente a necessidade de uma pausa mesmo, longe dos barulhos e da rotina insana de um hospital.

Em qualquer puerpério, precisamos de empatia, de menos julgamentos e de mais presença. Uma presença que acolhe, escuta, organiza, ameniza, acalenta. Uma ajuda, um auxilio, uma palavra, um abraço, um sorriso… E, para os pais de prematuros, podemos oferecer tudo isso também, respeitando o tempo, o ritmo e as características de cada um, diante do enfrentamento de uma realidade hospitalar.

Um grande abraço com muito afeto para todos os pais de prematuros com que a vida tem me presenteado. Um bastante especial vai para Fernanda, mãe do Eduardo, nascido de 29 semanas gestacionais, pois a nossa conversa foi a grande condutora desse texto. Gratidão por ter podido te escutar e acolher. O projeto @prematurosbr existe para isso e para cada vez mais conscientizar sobre a realidade de muitas mães e pais de prematuros.

Matéria completa em: https://www.google.com.mx/amp/s/revistacrescer.globo.com/amp/Colunistas/Teresa-Ruas-Vida-de-Prematuro/noticia/2021/01/precisamos-falar-sobre-o-pos-parto-de-maes-e-pais-de-

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