Teresa Ruas: “Não podemos afirmar que a prematuridade causa o autismo”

“É importante salientar que, embora exista uma correlação de potencializar os fatores de risco para o autismo na prematuridade, isso não significa que todas as crianças nascidas prematuras desenvolverão o transtorno”, alerta a colunista

A prematuridade é uma realidade complexa de saúde mundial, multifatorial, com diferentes desfechos para o prematuro, especialmente quanto ao desenvolvimento e aprendizagem a curto e a longo prazo. Sabemos também o quanto os diferentes desfechos de uma longa jornada em luta em prol da vida em uma UTI Neonatal/Pediátrica sofrem interferências diante da própria história clínica da gestante; condição de nascimento do bebê; qualidade da assistência prestada, desde que a mãe é considerada de risco para um parto prematuro até o momento da alta hospitalar; dos fatores ambientais, estimulação oportuna e qualidade dos serviços de saúde; da relação parental e genética, ou seja, a ciência e a clínica diária com prematuros e suas famílias verificam o quanto a prematuridade é, sim, um fator de risco para a “adequada” expressão do crescimento, desenvolvimento e aprendizagem a longo prazo. 

Estudos recentes têm investigado a relação entre autismo e prematuridade e mostrado o quanto essas crianças possuem uma tendência de aumento no risco e fatores de risco para desenvolverem o TEA (transtorno do espectro autista). Mas por que isso acontece? Os mecanismos exatos ainda não são totalmente compreendidos, mas alguns fatores como interrupções no desenvolvimento intrauterino cerebral, estresse oxidativo, infecções perinatais, insultos neurológicos (como a perda de massa branca do cérebro/leucomalácia periventricular) podem estar envolvidos.

É importante salientar que, embora exista uma correlação de potencializar os fatores de risco para o autismo na prematuridade, isso não significa que todas as crianças nascidas prematuras desenvolverão o transtorno. Ou seja, não podemos determinar a contribuição específica da prematuridade no desenvolvimento e expressão do autismo. Por isso, não podemos afirmar que a prematuridade causa o autismo e ponto final. Afinal de contas, o TEA (transtorno do espectro autista) é uma condição complexa, multifacetada, com vários fatores genéticos e ambientais contribuindo para o seu desenvolvimento e expressão. 

Ao meu ver, como mãe de dois prematuros e profissional de saúde, o mais importante diante de toda essa discussão é que os pais, cuidadores, profissionais de saúde e educadores compreendam que a prematuridade é, sim, um fator de risco para o crescimento, desenvolvimento e aprendizagem em nossas crianças nascidas prematuramente. Sabemos o quanto cada criança tem o seu ritmo, características próprias, genética, contextos culturais e sociais distintos e que interferem na qualidade de seu desenvolvimento, porém, nem tudo é uma questão de tempo e ritmo.

Algumas etapas, comportamentos, marcos e habilidades precisam ser adquiridas ao longo da trajetória humana, especialmente durante os primeiros anos de vida. Patologizar a saúde infantil — não compreendendo, por exemplo, a influência do contexto e determinantes sociais da criança e família para o desenvolvimento — não é o caminho para a detecção, identificação e tratamento de possíveis alterações e atrasos significativos e realizados de forma mais oportuna e precoce possível. Porém, não verificar atrasos significativos em nossas crianças prematuras, não orientar as famílias e encaminhar para os serviços de saúde e reabilitação mais adequados também não é o que esperamos.

Acredito que o melhor caminho para acompanhar toda e qualquer criança nascida prematuramente é aquele pautado por um olhar cauteloso, cuidadoso, que identifica no momento certo o que precisa ser detectado e tratado. Possíveis diagnósticos de autismo em prematuros, por mais difícil que seja para todos os envolvidos, especialmente para os pais, devem ser compreendidos como uma maneira de compreendermos melhor as características, potências e dificuldades apresentadas. Nenhum diagnóstico será o fim para nada. Pelo contrário! Corretos diagnósticos e tratamentos clarificam os melhores caminhos que podem ser seguidos e todo esse norte e direção interfere diretamente na qualidade de vida de todos os envolvidos. 

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